A ÁRVORE DESTE NATAL

Falta uma semana para o Natal, é mais do que hora de montar minha árvore e o presépio. Todo ano se faz isso, é uma coisa quase mecânica. Não há de ser neste Natal que vou ficar com preguiça de arrumar as coisas, bem neste ano que há um neto para ver minha árvore! Vou caprichar, mesmo que as costas estejam doendo, mesmo que a vontade ainda seja pouca.

Então, vamos lá. Pego uma escadinha para alcançar as caixas, guardadas sempre naquele lugar mais difícil, um canto no qual quase nunca se mexe. Levo tudo para a sala e abro. Respiro fundo. Que falta de vontade! E eu sento a olhar aquilo, ainda sem entusiasmo algum.

O que significa montar essa árvore? E esse presépio tão lindo, que eu e meu marido compramos no primeiro ano de casados, caro e fora do nosso orçamento, mas tão importante como símbolo da família que então começávamos, o que significa? 

Isso tem que ser algo mais que obrigação, eu penso. Tem que ser feito com amor e atenção. Resolvo começar pelo presépio.

Ele tem uma casinha em estilo alemão, que não era a casa do presépio, como me explicou a artesã da cidade de Rio Negro, onde foi comprado. Nossos presépios todos têm uma casinha que serve de caixa para guardar as figuras – ela falou com um pouco de impaciência. Veja, essa casa que a senhora quer, é para aquelas figuras que imitam porcelana, todo em tons ocre. As figuras que a senhora escolheu vão com aquela outra casa, que é em estilo rural. E apontou para uma casa que não me agradou nem um pouco.

- Mas as figuras que eu escolhi são cheias de cores, eu disse. Ela e meu marido me olharam, entendendo que ainda assim, contrariando toda a lógica e planejamento, eu iria comprar a casinha que havia me encantado, com as figuras que não cabiam dentro dela.

Tinha que ser, pois era e é encantador esse presépio, tão colorido. Tem o menino, Maria e José, o burrinho e a vaca. Um Anjo de Guarda, os Reis Magos (e seu camelo). Há também dois pastores com seu rebanho e os caçadores com seus cães. E um galo mais a galinha com pintinho amarelo de pé nas costas dela. Tinha que ser esse. Com a casinha que não acomoda as figuras dentro dela.

Lembrando da compra, já feliz e rindo pelas lembranças que voltavam, monto o presépio depressa, quase sem sentir.

Então olho para a Árvore na sua caixa. Ela não tem os trinta e oito anos do presépio, deve ter só uns vinte anos. Mas isso já é muito. Quando meu marido e eu compramos o presépio, deixamos para fazer a compra da árvore no ano seguinte. Só que nunca sobrava dinheiro para isso. Tanta coisa acontecia, a árvore ia ficando para mais outro ano e no outro ano era a mesma coisa.

Um dia deu certo! Comprei a árvore dos meus sonhos, que era da altura do teto, imensa e linda, mas cara. Tão cara que só pude colocar algumas poucas bolinhas, as que pude comprar junto com a árvore. Fiz uns laços de fita e uns enfeites de papel e ela ficou bonita já da primeira vez que montei.

A cada ano compro uma coisinha nova e agora a árvore tem muitos enfeites. Tem muitas lembranças também. Já montei essa árvore rindo, já montei chorando. Ela já foi montada por outros que não eu, pois houve tempo em que tinha loja e quem é comerciante não tem muito tempo para as coisas do Natal.

As lembranças vão voltando, enquanto eu coloco os galhos, um a um, seguindo a numeração. 

Terminada a montagem, abro as caixas dos enfeites. Claro que já chorei e fiquei feliz. Abro as caixas e é como abrir o resto do coração para muitas emoções. Os enfeites da minha árvore nunca foram renovados, eu não mudo os enfeites. Eles eram poucos no início e foram sendo aumentados através dos anos. Quando chega a época do Natal, compro umas coisinhas novas, mas também coloco o que já existe. Sempre cabe mais, a árvore é grande.

Começo a arrumação pelas bolas e enfeites de vidro, que hoje quase não existem. Pingentes, bolas douradas e vermelhas, uma bola com a Sagrada Família, um passarinho de rabo azul. Esses são os primeiros que vão enfeitaram minha árvore.

Encontro um Papai Noel feito por uma amiga querida que já não vive. Acho dois corações feitos na Noruega e enviados por uma companheira peregrina do Caminho de Santiago com quem nunca conversei, pois não havia um idioma que fosse falado por ambas, só nos sentávamos lado a lado e fazíamos juntas nosso lanche e descanso de caminhada.

Alcanço os cordões de contas brilhantes feitos por meu filho menino quando eu lhe pedi por alguns anos que montasse a árvore para mim. Como ele está em casa agora, vou perto dele e lhe agradeço pelo presente com um beijo. Ele já é um homem e pode sentir minha emoção, devolve o carinho.

Volto para a sala e continuo. Agora pego os enfeites que minha mãe não quis mais quando ela desistiu de montar sua árvore. Se um dia ela quiser fazer de novo sua árvore, eles estão preservados, mas hoje irão para a minha, como se fossem símbolos da árvore dela.

Encontro uma cesta com folhas imitando azevinho que veio num presente do primeiro chefe do meu marido, aquele que lhe deu o primeiro e depois o segundo emprego. Há muitos enfeites assim, que recebi adornando presentes e adaptei para colocar na árvore. Um enfeite que veio da minha sogra, um que veio de uma cunhada, outro que veio de alguns amigos e alunos – ninguém sabe que lembro deles todo ano quando monto a árvore. Todos vão para lá, a árvore já está muito bela.

Há uns pequeninos enfeites, muito antigos, feitos na China. Imagino que foram feitos por artesãos pobres e mal pagos. Arrumo-os com carinho e respeito.

Então, no fundo da caixa, vejo um enfeite que só coloquei na árvore uma vez. Há anos que não posso colocá-lo ali. É um enfeite daqueles que adaptei e que veio ornando um presente. Esse enfeite veio de uma pessoa que se tornou um inimigo, que fez muito mal ao meu marido e a mim. Depois da ofensa recebida, nunca mais consegui colocar esse enfeite na árvore, acho que é uma má energia, que vai estragar algo que só deve ser alegre. Mas, curiosamente, nunca o joguei fora, descartando de vez.

Ao ver o enfeite que foi banido, penso que a vida não é sempre alegre, afinal. E não conseguir usar esse enfeite significa que, embora eu diga que está perdoado, ainda existe mágoa e rancor. Pego o enfeite e os pensamentos me incomodam. As recordações de muitos natais vividos em comum no passado, ainda que eu saiba que havia pouca partilha e amor, me perturbam.

O que são esses enfeites? Lembranças da minha vida. As lembranças, para mim e para muitas pessoas, não são apenas de coisas boas. Há também muita dor e frustração no viver. As pessoas são o que elas podem ser, oferecem aquilo que podem dar e às vezes sabem fazer muito mal umas às outras.

Se eu posso aceitar isso, posso colocar hoje na minha árvore esse enfeite. Eu posso fazer isso porque estou consciente de que o passado não vai entrar na minha festa deste ano para estragar sua beleza. Nada fará falta ou terá sido em vão se eu tiver aprendido alguma coisa com as duras lições.

Acho que aprendi, tenho que ter aprendido.

Então coloco o enfeite e sei que só neste momento estou livre de verdade. Agora o perdão está completo. Vou ser feliz neste Natal, com minha árvore, na qual estão presentes as lembranças de uma vida cheia de alegria e algumas dores, tal como é a vida de todo mundo.

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Copyright 2003 CELINA FIORAVANTI
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